Newton Zadra: líder em prol da região

Newton Zadra nasceu em 22 de outubro de 1936, no Ipiranga – bairro que faz parte da “Grande Vila Prudente”, como ele costumava definir. Filho de Ricardo e Olga Zadra, veio ainda bastante jovem para a Vila Prudente e se apaixonou pela região, onde constituiu família, fundou empresas, dirigiu por anos a maior entidade social do bairro e sobretudo, fez história e deixou um enorme legado.

Como desenhista mecânico e projetista trabalhou na década de 50 em uma das principais multinacionais instaladas na região, a Linhas Corrente. A partir de 1961, passou a fazer projetos para a própria empresa na Vila Prudente: a Zadra Indústria Mecânica, de usinagem média e pesada, da qual esteve à frente por 39 anos. Sempre contava com orgulho que participou dos projetos dos foguetes Sonda e do Veículo Lançador de Satélites (VLS) do Centro Tecnológico da Aeronáutica. A empresa se mantém até hoje administrada pelos filhos, enquanto o fundador alçou para outros voos.

Por mais de quatro décadas, Zadra esteve à frente do Círculo de Trabalhadores de Vila Prudente, entidade do terceiro setor com quase 300 funcionários, que mantém mais de 20 projetos sociais e ganhou prêmios sob a sua gestão. Articulador nato e perspicaz, não perdia a oportunidade quando uma autoridade visitava a região e estendia o convite para conhecer o Círculo, resultando em parcerias vitais para a manutenção das obras sociais. Também presidiu a Federação dos Trabalhadores Cristãos do Estado de São Paulo, que congrega outros 30 círculos.

Mesmo liderando o Círculo que já prestava valioso serviço à comunidade nas áreas da assistência social, educação, saúde e cultura; decidiu que podia fazer mais pela Vila Prudente e região. Assim, nasceu em 1992 a Folha de Vila Prudente. O jornal sempre foi um espelho da dedicação e luta de Zadra em prol da região (veja Editorial).

Leitor voraz e amante da escrita, também enveredou para a literatura e, como não poderia deixar de ser, sua grande obra é o livro “Vila Prudente – Do Bonde a Burro ao Metrô”, lançado em 2010. Em 190 páginas, narra, esmiuça e perpetua a história do bairro. Também é autor de livros sobre a Paróquia Santo Emídio, lançado em 2014, e sobre as obras sociais de Padre Damião em Vila Prudente, de 1997. Tinha outros projetos literários em andamento, inclusive um livro de contos inspirado em fatos e personagens reais, no qual escancarava seu humor ácido – outra marca registrada de quem o conheceu.

Despedida

Newton Zadra faleceu na manhã da última quarta-feira, dia 16, em sua residência, aos 89 anos. Era viúvo de Esmeralda Fernandes Zadra, com quem foi casado por 60 anos. Deixa os filhos Ricardo, Katia e Alexandre. As noras Mônica e Lenira e o genro Ventura. Os netos André, Pedro, André Luis, João Vitor e Rafael e a bisneta Helena, entre demais familiares e uma legião de amigos.

A despedida ocorreu no velório do Crematório de Vila Alpina e foi do jeito que Zadra gostava: com sala cheia, muita conversa e representatividade. Passaram pelo local políticos e membros de partidos de todos os vieses ideológicos, representantes das mais diversas entidades, lideranças regionais, empresários, comerciantes e tantas outras pessoas que participaram da sua história nestas mais de oito décadas de vida.

Foi como uma das grandes reuniões que Zadra organizava e liderava em suas salas no Círculo e na Folha. Sempre em “prol da região e da comunidade” como não se cansava de repetir. (Kátia Leite)

EDITORIAL: A Folha

Fundada no final de 1991, por um grupo de 14 empresários da região, entre eles Newton Zadra, a primeira edição da Folha de Vila Prudente foi às ruas em 17 de janeiro de 1992. Como o próprio Zadra costumava dizer (não raro, esbravejando), “editar um jornal de bairro é coisa de maluco”. Talvez, exatamente por isso, nos últimos anos ele era o único proprietário da Folha.

Sob a presidência atuante de Zadra, o jornal se consolidou como uma referência na imprensa regional. Defensor intransigente do jornalismo ético, não fazia censuras no conteúdo editorial, mesmo sabendo que muitas vezes encontraria a pessoa alvo das críticas na fila da padaria ou na feira de domingo. Pelo contrário, muitas vezes ele mesmo colocava a mão no teclado ou cobrava um texto mais contundente da equipe de redação.

Poucos podem se dar conta disso, mas é necessário ter muita coragem para editar um jornal de bairro. E esse é o grande diferencial da Folha: ao contrário de alguns veículos regionais, nunca se restringiu às colunas sociais ou a mera divulgação de releases (como chamamos as matérias que chegam prontas). Pelo contrário, Zadra era o primeiro a cobrar o jornalismo de verdade, combativo, apartidário e isento. Também defendia o conteúdo estritamente regional.

À frente do jornal foi visionário. Olhava para imensos terrenos ociosos e decidia iniciar campanha por um novo parque público. Não dava descanso às autoridades, aos políticos regionais, às demais lideranças locais, à sua equipe e a quem mais precisasse até o projeto vingar. Exatamente por esse espírito incansável, a Folha foi pioneira nas lutas pelos parques de Vila Prudente (em uma área abandonada ao lado do crematório) e da Mooca (no antigo terreno contaminado da Esso). Hoje, ambos implantados e abertos à comunidade, fazem parte do grande legado de Newton Zadra para a região.

Para a equipe da Folha essa é provavelmente a edição mais difícil de toda a sua história. Justamente porque sabemos que hoje não haverá broncas porque não gostou da foto, o título poderia ser melhor, faltou “veneno” em determinada nota, o texto está longo demais ou os anúncios estavam mal distribuídos (a lista é longa!). Com certeza, também brigaria porque “apareceu demais” e que o jornal não existe para mostrar o dono. Enfim, mas, dessa vez, a exceção é mais do que merecida e necessária.